Inflação e comportamento imprevisível da Selic levam à cautela futura

A ata da última reunião do Copom deixou a fresta aberta para um corte adicional da Selic, talvez, de 0,25 ponto percentual. No entanto, é bastante improvável que isso aconteça, pelo menos, nas próximas reuniões. Isso só ocorreria se houvesse uma configuração muito favorável do cenário, econômico – mais do que temos hoje. 

Favorável o cenário está. Vamos fechando o ano com a perspectiva de um desempenho da economia bem melhor do que se esperava poucos meses atrás. A aceleração de atividade está mais espalhada pelos vários setores, mesmo que em ritmo diferente. Ainda, já se nota os reflexos no mercado de trabalho, com geração de emprego – ainda muito na informalidade, é fato. Só que isso tende a melhorar com mais investimento e confiança. 

O empresariado aguarda maior segurança quanto à retomada, antes de encarar os custos da contratação com carteira assinada. Essa confiança vem aumentando desde a aprovação da Reforma da Previdência, reforma que tirou as finanças públicas de uma rota insustentável. Já tem até agência de classificação de risco sinalizando uma revisão pra cima da nota do País. Clima que estimula os investimentos, junto com outros fatores, como a redução dos juros.

Juros menores desestimulam os ganhos de tesouraria que levavam ao adiamento das decisões de investimento dos empresários, em geral, e até dos bancos. Diante da queda de rentabilidade das aplicações, os empresários devem investir mais na própria atividade e os bancos na concessão de crédito. Por consequência, os consumidores ficam mais dispostos a gastar, reanimando a atividade. E não é só isso.

Aqueles investidores insatisfeitos com as aplicações que rendem juros, podem escolher outras aplicações, como Bolsa e fundos imobiliários, se não quiserem gastar com consumo. Essas aplicações também têm repercussão sobre a atividade econômica. Da mesma forma que o investimento direto na compra de imóveis, que tem ajudado muito na reação do setor da construção.

O perigo da inflação

Voltando ao início: acho improvável mais um corte da Selic nas próximas reuniões, porque todo esse ambiente pode dar margem para pressões inflacionárias. As recentes variações mais pesadas dos índices dão alerta do quanto que podem surgir pressões pontuais, alterando a trajetória prevista. O próprio crescimento mais vigoroso de atividade em 2020 traz dúvidas nesse sentido. Afinal, nunca tivemos juros tão baixos e não se pode antecipar qual será o comportamento futuro dos preços.

Ademais, as metas de inflação vão cair nos próximos anos, o que pode exigir maior austeridade do BC no que se refere ao controle da inflação.
Por todos esses fatores, é bem provável que o Banco Central dê um tempo para observar a evolução do quadro econômico. Importante lembrar que o atual nível de juros ainda tende a ter mais reflexos no custo do crédito. Se não tiver pela própria configuração do mercado, já vimos que o BC pode interferir para aparar as arestas e induzir um cortes maiores dos juros na ponta final para os consumidores. Fez isso com o cheque especial e pode fazer com outras linhas de crédito que pratiquem taxas abusivas.

O melhor seria também cuidar de outros fatores que influenciam no custo do crédito, desde a tributação até a dificuldade de retomada de garantias em caso de não pagamento. Evidentemente, muita coisa entra na formação das taxas na ponta final e pode ser alterada para produzir mais resultados. 

Mas os juros, no atual patamar, já podem ajudar a alavancar uma evolução bem mais favorável do crédito e de toda a economia. Com juros reais abaixo de 1% ao ano, ainda se pode esperar muitos reflexos. Um deles já ocorreu: a queda das taxas do financiamento imobiliário, que tem ajudado bastante na reação do setor. É torcer para que, entre os reflexos, não venham pressões na inflação que provoquem alguma revisão pra cima da Selic. É muito bom para o País poder conviver com juros tão baixos por um tempo mais prolongado. Só estamos começando a perceber isso.