Ano novo, mesmo desafio

Desde o início do ano, escutamos membros do governo, do Banco Central e outras instituições afirmando que a confiança precisa ser reconquistada. E vez ou outra, o assunto volta a ser o destaque. Não é para menos: a confiança é um fator fundamental para que possamos ver o nosso país crescendo.

A importância não é uma exclusividade de países emergentes ou apenas do Brasil. Para Lawrence Summers, que já foi secretário do Tesouro dos EUA, “a confiança é a forma mais barata de estímulo econômico”. Eu não poderia concordar mais com a frase.

Sem a confiança dos empresários e famílias, os investimentos e consumo não são retomados, a expectativa do governo para realizar as reformas e ajustes necessários ao país desestimula iniciativas e até os efeitos da política monetária perdem sua eficiência. Ou seja, esses são apenas os efeitos primários da falta de confiança, que ainda desencadeiam as mais variadas consequências.  

Como o Brasil passou por uma recessão forte, a sua capacidade ociosa ainda é grande. Por isso que a nossa recuperação virá do consumo, porque, com capacidade ociosa, não haverá muito investimento. Além de que, o consumo das famílias representa dois terços do PIB brasileiro, o que não nos deixa mentir sobre a sua relevância.

Nesse sentido, a confiança das famílias sobre seus empregos e a capacidade de honrar as suas dívidas em um cenário de juros baixos é essencial para começarmos a ver o crescimento de volta às terras tupiniquins. Fora que, se há piora do consumo, pode-se levar toda e economia brasileira, que é fortemente dependente de serviços (setor relacionado com a renda), para baixo.

Ano novo em números

Para tentar reunir todo o sentimento, o Índice de Incerteza da Economia – Brasil (IIE-Br), calculado pela FGV, busca mensurar a incerteza da economia brasileira a partir de informações coletadas dos principais jornais do país, do Ibovespa e das expectativas do mercado financeiro acerca de variáveis macroeconômicas.

No final de novembro, o indicador caiu seis pontos para 105,1 pontos, o menor nível desde fevereiro de 2018. Vale lembrar que 100 pontos indicam a neutralidade. Em outras palavras, estamos seguindo um bom caminho, mas que ainda deve ser observado de perto para que não saia dos trilhos.

Até publicações como o Financial Times estão apontando a volta da confiança dos consumidores, em especial na janela que vai do meio de novembro e que seguirá até após o Natal. Não apenas no varejo é possível observar tal expansão, mas também no mercado de crédito e empréstimos – que estão evoluindo a um nível interessante.

Agora, é esperar que a confiança mantenha esse ritmo e que a recuperação da economia brasileira não será interrompida, não só devido a euforia interna, como também levando em consideração os riscos internacionais (desaceleração global e guerra comercial entre EUA e China). Em outras palavras: ano novo, mesmo desafio.

Pela ótica interna, apesar de termos acompanhado muito ruído, em especial no que diz respeito a falas controversas do governo, o plano econômico foi bem endereçado conseguindo alguns avanços importantes e o Banco Central está conseguindo manter a inflação sob controle com uma Selic baixa. Por enquanto, o efeito de juros tão baixos ainda não foi totalmente repassado aos consumidores, ou seja, ainda há outra onda a ser surfada e que poderá dar um novo fôlego ao consumo, bem como o desemprego, que ainda tem um belo espaço para ser reduzido.

Recuperada a confiança, é preciso acompanhar se a atividade econômica será realmente destravada. No momento, ainda estamos vendo uma mudança emocional e não técnica. Por isso, é essencial que este ritmo seja mantido até que possamos ver avanços na forma de bons dados econômicos e, aí sim, com a previsibilidade e expectativa de retornos futuros positivos fica mais plausível vermos um PIB acima dos 2% neste ano novo que está por vir. Como Luis Sthulberger afirmou, o país corre o risco de dar certo.