Podemos ter mais que um voo de galinha

O balanço das vendas de Natal confirma a tendência de um início de 2020 mais acelerado. A economia ganhou impulso nos últimos meses com a aprovação da Reforma da Previdência, que gerou perspectivas melhores quanto à evolução das finanças públicas, ponto importante para a retomada dos investimentos e para um comportamento melhor do mercado financeiro. O corte da taxa básica de juros vem atuando no mesmo sentido, ao reduzir o custo de rolagem e o ritmo de expansão da dívida pública. Fora isso, há também o impacto efetivo sobre o custo do crédito, estimulando o consumo e a atividade. 

A recuperação do mercado de trabalho, mesmo que ainda muito modesta, e mais a liberação do fundo de garantia ajudaram a impulsionar o comércio e serviços, com reflexos na indústria, reforçando o cenário de uma retomada mais firme da atividade. Não se deve, porém, exagerar no otimismo. Ainda há muitos desafios pela frente. Faltam avanços mais consistentes das reformas que vão assegurar um ajuste mais confiável das finanças públicas, como a administrativa e as PECs que já estão no Congresso. Caso contrário, corremos risco de presenciarmos mais um voo de galinha brasileiro.

O governo ainda registra imensos déficits nas contas públicas. Mesma situação da maior parte dos Estados e municípios. Por outro lado, os investimentos continuam abaixo do esperado e do necessário, O mesmo vale para a recuperação do emprego, que está longe da que o País precisa. Mas, certamente, vamos começar 2020 com muito mais condições concretas para a aceleração da atividade do que tínhamos no começo deste ano. O ano de 2019 começou com projeção de expansão até maior, só que baseada muito na expectativa do que o novo governo poderia fazer, a partir de uma estratégia de política econômica mais responsável. Essa estratégia, vale lembrar, começou a ser delineada no governo Temer e deveria ser reforçada na agenda da equipe de Paulo Guedes. 

Depois vieram tropeços políticos. Dificuldades não previstas atrasaram a agenda, que só começou a estabelecer um cenário efetivamente melhor a partir do final do terceiro trimestre. E é com base neste cenário que se pode esperar um 2020 com mais atividade. Só que, de novo, será preciso contar com o entendimento político na implementação da agenda – agenda esta que ainda têm pontos importantes em aberto. É a partir daí que se poderá renovar e reforçar a confiança dos agentes econômicos.  

Sem isso vai ser difícil termos impulso mais significativo dos investimentos, inclusive, com maior fluxo de capital externo.  Processo que também vai depender da aceleração das concessões e privatizações. Enfim, o ufanismo exagerado do pós eleições, que gerou muitas expectativas no começo deste ano,  dá espaço para um otimismo ainda cauteloso para o começo de 2020, baseado em avanços mais concretos que tivemos ao longo deste ano. 

O Brasil começa a estabelecer as condições para um crescimento sustentável de longo prazo. Se não tivermos um desvio de rota ou entraves maiores na agenda, continuaremos a ser assombrados pelo tímido e frágil crescimento, ou – no linguajar já consagrado entre economistas – apenas mais um voo de galinha.