Os partidos brasileiros no espectro político

Dias antes de fundar o partido do qual foi mentor intelectual, o Partido Social Democrático (PSD), Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo e experiente político, usou a seguinte frase para posicionar a sigla ideologicamente: “Não será de direita, não será de esquerda, nem de centro.”

Nas entrelinhas, Kassab expressou uma das visões disseminadas na contemporaneidade acerca dos diversos espectros políticos – em que a dicotomia “direita vs. esquerda” já estaria ultrapassada e não comportaria mais identificações ideológicas de novos partidos e movimentos. A única gafe do político foi afirmar também que a legenda não era de centro, levando-nos à conclusão de que o PSD, ideologicamente, não era… nada.

Apesar de terem ganhado outras muitas variáveis e de terem se desvirtuado de seus conceitos iniciais, principalmente com a transformação sociocultural pela qual o mundo passou nas últimas décadas, os conceitos de direita e esquerda ainda – sim – importam quando um partido vai se definir politicamente.

A partir do pós-modernismo e em um contexto de sociedade pós-industrial, o debate em torno de direita e esquerda se distanciou das pautas tradicionais, tais como papel do Estado, economia, trabalho e pobreza, dando espaço para discussões mais centradas no indivíduo e em sua relação com o mundo. É o caso de, por exemplo, temas como direito irrestrito ao aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, preocupações ecológicas etc.

Ainda assim, existe uma vasta literatura na Ciência Política que demonstra ser inegável a importância dos conceitos de esquerda e direita sobre partidos políticos e sua influência nas práticas legislativas. Inclusive, alguns mais radicais argumentam que o real posicionamento dos partidos se dá pela maneira como seus parlamentares votam no Congresso. Pouco importaria, portanto, a autodenominação ideológica. De qualquer forma, existem, tanto para os velhos temas quanto aos novos, posicionamentos tipicamente à esquerda e à direita.

Por outro lado, é bastante comum que partidos políticos mudem de nomenclatura, programa político-ideológico e, até mesmo, posicionamento do espectro político em prol de interesses estratégicos. Apesar de diferentes motivações, todas levam a um denominador comum: angariar mais votos nas eleições. Por isso, alguns cientistas políticos preferem por montar seu próprio espectro partidário para posicionar os partidos ao longo do eixo esquerda-direita.

No artigo A Alocação dos partidos no espectro ideológico a partir da atuação parlamentar (2019), Scheeffer dá luz ao comportamento dos partidos em 24 votações nominais notadamente ideológicas realizadas na Câmara dos Deputados no período de 2011 a 2015. Ainda mais, o autor monta um quadro comparativo com o consenso entre cientistas políticos sobre o espectro Esquerda-Direita brasileiro. Como podemos observar na imagem abaixo, o posicionamento dos partidos pouco muda nas duas abordagens.

Em outras palavras, é possível reunir diferentes abordagens para montar um espectro ideológico-partidário. A ideia deste artigo, porém, não é essa. Vamos usar somente uma das abordagens – a de autoidentificação das legendas – de forma comparativa, com as respostas coletadas em 2016 e 2019. A partir dos dados coletados, será possível levantar algumas hipóteses para explicar o posicionamento dos partidos no espectro ideológico. 

Em 2016, foram enviados questionários para a direção nacional das 35 legendas registradas pelo TSE. Tais questionários continham a seguinte pergunta: “Em qual posição política o partido se colocaria?” Como o questionário era fechado, as siglas somente poderiam escolher entre esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita. Na conjuntura de 2016, 48% dos partidos que responderam (27 respostas) se declararam de centro. No gráfico abaixo, você pode conferir a relação das respostas.

No grupo dos partidos de esquerda, todos as siglas parecem estar bem identificadas: PCB, PCO, PSOL, PSTU e PT. O mesmo ocorre com os partidos identificados à centro-esquerda: PDT, PPS, PROS, PSB e PPL, este incorporado, hoje em dia, ao PCdoB. Com relação à identificação com a direita, o PP é o único que se declarou pertencente a essa faixa à época. Na centro-direita, posicionaram-se o Novo, o PRB (hoje, denominado Republicanos) e o PSC.

Já no centro, o que se observa é que metade dos partidos se considera pertencente a esse grupo – o que não parece, na prática, real. Neste caso, partidos como o DEM, o PTdoB (hoje, Avante), o PEN e o PRP (hoje, ambos se juntaram e tornaram-se Patriota), o PV e o PTC poderiam estar facilmente na centro-direita ou centro-esquerda. Posteriormente, vamos explicar o porquê da preferência pelo centro.

Na pesquisa realizada em 2019, os 33 partidos registrados no TSE foram novamente questionados sobre como eles se situariam no espectro político: apesar do centro ser a preferência da maioria dos partidos (10), o quadro, quando comparado ao ano de 2016, ficou mais distribuído. Vale ressaltar que, desta vez, a pesquisa foi aberta – alguns partidos se definiram fora das cinco opções (esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita).

Nesta última pesquisa, é importante destacar a mudança do PSL para a direita, monopolizando essa fatia do espectro. O Progressistas, anteriormente na direita, posicionou-se na centro-direita. De resto, não há mudanças significativas – partidos de centro permaneceram no centro, assim como os de centro-esquerda e esquerda. Por isso, partidos que, na prática, votaram mais alinhados à direita ou à esquerda não refletem na teoria seus posicionamentos práticos.

A única ressalva fica por conta das respostas “criativas” do DEM, do Novo, do PSDB, da Rede e do Solidariedade (SD). Definições como “humanismo sistêmico” (SD) ou “liberalismo social” (PSDB) mais parecem formas de evitar um posicionamento contundente no espectro esquerda-direita. Não é novidade para ninguém, por exemplo, que o Novo se encontra na centro-direita, ou até direita para alguns. No entanto, o partido prefere se definir como “liberal”.

A estratégia de definir a ideologia de um partido utilizando outro nome evita afastar, de primeira, um eleitorado que se identifica à esquerda ou à direita. Outra estratégia – que não à toa tem sido, ultimamente, a preferência da maioria dos partidos em ambas as pesquisas – é se definir no centro ideológico, podendo dialogar com os dois lados do espectro. Estudos empíricos mostram, inclusive, que, quanto mais extremo o posicionamento, menor é a identificação da população com as ideias do partido.

Apesar disso, o grande triunfo das eleições de 2018 foi a vitória de um candidato que se posiciona declaradamente, junto com seu partido – à época –, à direita, o que pode significar uma nova onda de fortalecimento e identificação de partidos neste espectro. O próprio PSL, agora não mais a legenda do presidente, deve continuar na direita para disputar espaço com o Aliança Pelo Brasil, o novo partido de Bolsonaro.

Apesar de muitas mudanças terem ocorrido no cenário político brasileiro entre 2016 e 2019, é possível afirmar que a estrutura ideológico-partidária pouco mudou. Observamos mais uma reestruturação interna – renomeação de partidos, novos conteúdos programáticos etc. – do que uma mudança de eixo ideológico mais profunda. A grande novidade é outra: pode ser que estejamos no início de um novo período, em que a direita, ideologia pouco refletida pelos partidos desde a redemocratização, volte a ganhar força e identificação.


Caros leitores, mais um ano se finda e continua sempre um prazer poder compartilhar minhas ideias e análises sobre a política brasileira nesta coluna. Espero que tenha sido tão proveitoso para vocês quanto foi para mim. Desejo um ótimo ano novo e muita saúde e prosperidade em 2020! Seguimos juntos. Um grande abraço!