Novas nuvens no cenário global

O mercado de ações ainda comemorava os bons resultados de 2019 e a retomada mais firme da atividade econômica, quando 2020 começou mostrando que vai ser difícil termos um céu de brigadeiro. É verdade que as nuvens começavam a se dissipar no que se refere à guerra comercial entre China e Estados Unidos. O embate vinha pesando demais sobre o mercado, o comércio e a economia global. No entanto, mal piscamos e já veio uma nova onda de preocupações geopolíticas e econômicas, após o assassinato, no Iraque, do general iraniano Soleimani pelos Estados Unidos.

Por enquanto, os desdobramentos foram mais “emocionais”, defensivos: as Bolsas caíram; petróleo e commodities, que oferecem proteção – assim como ouro e prata – subiram. No Brasil, o dólar inverteu o movimento de queda. Para a economia brasileira, uma das principais ameaças fica com a possibilidade de a alta do petróleo acabar levando à necessidade de reajustes mais pesados dos combustíveis, afetando a inflação. O comércio entre Brasil e Irã não é muito significativo. Potencialmente, poderia haver maior venda de produtos básicos, que já dominam a pauta, mas até por aí há limitações. As duras sanções impostas pelos Estados Unidos já comprometem os financiamentos das vendas para o país persa.

Além da questão mais específica do petróleo, a troca de ameaças entre os dois países cria um clima de tensão, porque elas podem levar a ataques efetivos, inclusive, cibernéticos, com consequências para a economia global. Sendo que o petróleo já é um produto estratégico para boa parte do mundo.

O que se espera é que ainda haja uma acomodação de toda essa situação, evitando desdobramentos mais sérios. Mas, no mínimo, fica mais um exemplo de como está difícil se construir um cenário mundial de maior estabilidade e crescimento. Isto porque o mercado até vem tentando retomar a normalidade, após o primeiro impacto e toda a especulação negativa que provocou.

2020 começou com perspectivas melhores por vários fatores, como o possível acordo entre Estados Unidos e China; a possibilidade de um Brexit negociado; o efeito das políticas de estímulo implementadas pelos bancos centrais, com a manutenção de juros bem baixos, num cenário de muita liquidez. Do ponto de vista econômico, os Estados Unidos mantêm bom ritmo de expansão, a Europa tem mostrado performance melhor que se previa, especialmente a Alemanha. A China deve crescer menos, mas nada muito comprometedor.

Enfim, começamos o ano com a perspectiva de um cenário global menos adverso, que ainda tende a colaborar com uma esperada melhora da performance da economia brasileira, decorrente de reformas, do ajuste fiscal em andamento e outras mudanças que já começaram a acelerar a retomada do crescimento. Só que esse novo fator de tensão nos lembra da necessidade de fazer muito mais para assegurar avanços, que deixem o País, efetivamente, menos vulnerável, nos vários aspectos, não assegurando apenas condições de aceleração da atividade.

Blindagem não é possível. Mas quanto mais o Brasil avançar na reestruturação da economia, na correção de rota, menos risco vai correr, por piores que sejam as condições externas. Cautela que todos devemos ter na gestão das várias frentes da nossa vida financeira. Otimismo é bom, dá força pra ampliar os horizontes, para crescer, aumentar o potencial de ganhos. Só que é importante avançar em terreno firme, com riscos mais calculados, pra reduzir o impacto de eventuais surpresas e o potencial de perdas. 

Por mais que o céu esteja limpo, tempestades podem se formar. Casas com telhado sólido, bem posicionadas, sempre sentem menos os efeitos.