Economia deve acelerar expansão, mas é cedo para baixar a guarda

O ano de 2020 começou com expectativas bem favoráveis em relação ao andamento da economia. Mas ainda é preciso conferir se, desta vez, a economia terá fôlego para confirmar essas projeções. Vale lembrar que 2019 começou com expectativas ainda mais otimistas. Os mais otimistas chegavam a falar em um avanço de 3%. Depois, uma série de entraves fez o País experimentar até mesmo um momento de retração no segundo trimestre. No ano, o crescimento acumulado deve ter ficado pouco acima de 1%.

O governo prevê, agora, uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) maior até que a esperada pelo mercado. O Boletim Macrofiscal, que traz as estimativas da equipe econômica, projeta um avanço de 2,4% neste ano. O mercado, de acordo com o último relatório Focus, espera um crescimento de 2,3%. Pouca diferença. O que importa mesmo é a capacidade de a economia manter um ritmo mais sustentável de expansão, reforçando a confiança, que colabora, entre outros efeitos, para uma maior geração de emprego.

É este o cenário previsto neste momento para 2020. Temos diferenças importantes em relação à situação de um ano atrás. Uma das principais é o encaminhamento do ajuste fiscal, principalmente, com a aprovação da Reforma da Previdência. Além disso, a atividade econômica tem reagido sem depender do governo, como costuma (ou costumava) acontecer. Isso reduz bastante a possibilidade de uma expansão artificial, por meio de intervencionismos que, quase sempre, “custam caro”. Temos também a combinação, muito saudável, de inflação e juros baixos. Apesar de a inflação no fim do ano passado ter superado um pouco o teto das projeções, deve haver uma acomodação dos preços que pressionaram mais os índices, dando condições de os juros básicos permanecerem no nível atual, o que é importante para dar continuidade à melhoria das condições de crédito.

Todos esses fatores já sustentam uma perspectiva melhor para este ano. Mas podemos contar com outros, dependendo do encaminhamento da agenda do governo. No plano das expectativas, podemos ter uma aceleração das concessões e das privatizações, com mais investimentos e com todas as consequências positivas que eles podem trazer, desde aumento da atividade, melhoria da infraestrutura, da produtividade, até a geração de empregos. Aliás, num ambiente de maior atividade, também se pode contar com números melhores do mercado de trabalho, em especial uma queda na informalidade. Um fluxo maior de capital externo é outro fator que pode colaborar para um cenário mais benigno, sem esquecer da agenda de reformas que pode até sofrer  algum atraso por ser um ano de eleições. O timing político tende a impor dificuldades.

Mas, estamos só começo do ano, por isso é importante acompanharmos a evolução dos indicadores, aqui e no Exterior, para uma maior segurança quanto ao potencial de expansão da economia. Indicadores que vão ser reflexo, em boa parte, como ressaltei, do encaminhamento da agenda do governo e da reafirmação de compromissos.

Apesar de o fim de 2019 ter indicado uma retomada mais firme de atividade, tivemos a divulgação de alguns indicadores que mostraram as dificuldades que determinados setores ainda enfrentam para engatar um crescimento mais contínuo. A produção industrial caiu em novembro, assim como a atividade do setor de serviços. Nos dois casos se vê um ajuste apenas pontual. Serviços devem ter, inclusive, a primeira variação positiva anual, após alguns anos de queda. Mas sofrem com os efeitos de uma certa fraqueza que ainda se nota na retomada da economia em geral. Por isso é importante não baixar a guarda. A economia ainda está reagindo ao tombo histórico, mas está longe de se reerguer, de fato, revertendo tudo que foi perdido, estabelecendo um horizonte de longo prazo de crescimento sustentável.

A principal alavanca da retomada do crescimento ainda tem sido o consumo, impulsionado pela expansão moderada do emprego, pelo aumento da confiança e pela melhoria das condições de crédito. Falta avançar, e muito, nos investimentos, para maior ganho de produtividade e competitividade, paralelamente à implementação das reformas reestruturantes, ao ajuste fiscal, e à melhoria do ambiente de negócios, inclusive, com maior segurança jurídica e institucional.