A caixinha de surpresas de 2020

O ano começou com perspectivas mais favoráveis para a economia global e, em particular, para a brasileira. Do lado externo, mesmo com as indicações de uma expansão ainda fraca – com preocupações em relação ao desempenho até de economias fortes como da Alemanha – se esperava um impacto positivo da primeira etapa do acordo entre China e Estados Unidos. Na conta do otimismo, também havia os esforços feitos pelos bancos centrais para sustentar uma atividade mais satisfatória e um Brexit negociado. Tudo isso ainda está na agenda. Só que a fase 1 do acordo China x EUA trouxe frustração por não remover alíquotas. Na mesma esteira, veio a crise Estados Unidos x Irã, dando alguns trancos no mercado. E, agora, o coronavírus que, para além da tragédia humana e dos terríveis óbitos, terá repercussão para a economia global. Na China, primeiro país com um caso de infecção, já se fala em retração de até 1% do PIB.

Não dá pra saber até onde vai a epidemia do coronavírus. O esforço global para conter o avanço da doença até tem ajudado, pontualmente, a diminuir o stress do mercado. Por outro lado, também há indicação de esforços, mais uma vez, principalmente da China, para conter os reflexos econômicos através da injeção de recursos e outras medidas. É uma prática comum na China que, há bastante tempo, vem tentando estimular mais a atividade e retomar percentuais mais vigorosos de expansão. Aliás, esperava-se que o país pudesse entrar numa trajetória mais promissora a partir de entendimentos maiores com os Estados Unidos, que ainda devem acontecer.

Os bancos centrais, provavelmente, também devem passar a discutir as políticas de juros levando em conta as novas condições do cenário global, afetado pelo coronavírus. O Fed está incluso nesse grupo. Agora, por mais que se conte com impactos de curta duração, como já ocorreu em situações semelhantes, como na época do H1N1 e da gripe aviária, é preciso antecipar consequências mais sérias. É fundamental tentar estabelecer estratégias considerando todos os desdobramentos possíveis dessa epidemia. Isso vale do ponto vista da saúde e vale também do ponto de vista econômico. Detalhe: o planejamento estratégico deve ser feito sem que isso leve a uma onda de pessimismo que gere consequências ainda mais negativas ou desnecessárias. 

Para o mercado, é preciso uma releitura do cenário considerando tudo que pode acontecer, mediante as novas incertezas desse 2020, para redefinir estratégias e buscar boas oportunidades. O ajuste das Bolsas, por exemplo, pode estabelecer boas oportunidades de compra.

Especificamente em relação a Brasil, vale lembrar que temos perspectivas bem melhores para este ano. Esse movimento já não estava muito relacionado a um cenário externo mais positivo. A retomada de um crescimento mais vigoroso depende muito mais da reestruturação da economia, do aumento dos investimentos, de uma maior confiança no potencial do País e da recuperação do mercado de trabalho. É por aí que devemos assegurar um 2020 melhor.

No entanto, por outro lado, não é a epidemia que vai acabar com a liquidez externa. Ela pode até provocar movimentos de aversão ao risco, que o Brasil pode minimizar fazendo a lição de casa. O ano começou com alguns “enroscos” não previstos. É certo. Mas nem por isso devemos ter uma reversão de expectativas. O Brasil já estava meio na contramão da tendência global, o que pode até colaborar para uma blindagem maior contra os problemas externos de 2020.