A indústria brasileira como catalisadora

As projeções para a economia brasileira neste começo de ano apontam para um desempenho bem melhor que o do ano passado. Vários fatores apontam nesta direção, principalmente pela reação do consumo, que está relacionada a uma maior confiança, liberação do FGTS e também a recuperação do mercado de trabalho. Apesar de o desemprego ainda estar em patamar muito alto – com avanço forte da informalidade – a massa de rendimentos cresceu, o que ajuda a impulsionar a atividade

Mas, mesmo que a economia tenha essa performance melhor, com crescimento que pode ser mais que o dobro dos últimos anos, é preciso cuidar das condições desse crescimento. Não é possível contar apenas com a expansão do consumo ou “principalmente” com a expansão do consumo. Os dados da indústria, referentes ao fechamento de 2019, mostram que ainda há muito a ser feito no processo de retomada da atividade, assim como dos investimentos, que continuam baixos em relação ao PIB.

A atividade industrial está rodando no nível de 2009 e com um patamar de investimentos, do próprio setor, que dificulta o aumento da produtividade, da competitividade e, como consequência, a ampliação das vendas externas. Os números da balança comercial e a dependência que têm das exportações de produtos básicos demonstram as deficiências do setor e também, claro, de toda a economia. A indústria pode estar atrasada, mas parte do problema vem do Custo Brasil, que reúne várias “ineficiências” do País, desde a precariedade da infraestrutura de transportes, de energia, até a complexidade do sistema tributário. Isso sem esquecer que o fato de a economia ser muito fechada acabou por desestimular a busca por maior eficiência mesmo antes da recessão. Há muito tempo a indústria vem perdendo participação no PIB.

Enfim, a economia está crescendo mais, o que é muito positivo. Só que para consolidar um crescimento mais robusto, sustentável a longo prazo, é preciso corrigir as ineficiências. As reformas, as medidas reestruturantes dos vários setores, as concessões e privatizações, que podem assegurar mais investimentos em áreas prioritárias, são a base para escapar dos costumeiros vôos de galinha. Por outro lado, a continuidade do ajuste fiscal, que vai bem além de reformulação das regras da Previdência, pode estabelecer um clima de maior confiança que também é importante para impulsionar a atividade.

Já a indústria, em particular, ao mesmo tempo em que tenta recompor as defasagens acumuladas desde a recessão, retomando níveis mais elevados de produção, terá de correr atrás da modernização, atingindo o patamar da chamada indústria 4.0 (que no Fórum Mundial de Davos foi chamada de quarta revolução industrial). Isso deve ocorrer na medida em que se fortaleçam as apostas em um desempenho melhor da economia que compense os custos dos investimentos. Paralelamente, ainda que com uma certa cautela, é importante prosseguir com a abertura que, comprovadamente, leva a maior busca por competitividade.

Nesse processo é preciso considerar, claro, as condições do cenário internacional. A desaceleração do crescimento global, a perda de ritmo do comércio e até questões inesperadas como a epidemia do coronavírus podem impor travas adicionais, tanto no aspecto psicológico do aumento das incertezas como os impactos concretos sobre o potencial de expansão dos negócios.

O Brasil está meio na contramão de boa parte do mundo. Vem engatando um maior ritmo de expansão, com reformas importantes e maior abertura, num momento mais contracionista no âmbito global, em vários sentidos, como no comércio. Estar no sentido contrário pode até garantir alguma blindagem, mas, ao mesmo tempo, faz com que a caminhada seja mais difícil. Por isso não dá pra relaxar com os resultados obtidos até agora. Inclusive porque alguns setores, como a indústria, ainda não têm muito o que comemorar.