Será que os juros ainda podem cair mais?

O Copom, Comitê de Política Monetária do Banco Central, ao anunciar o último corte da taxa Selic para 4,25% ao ano, deu a entender que seria o último mesmo, principalmente, pela defasagem entre os cortes e o impacto efetivo sobre o crédito e a atividade. E essa questão ainda está colocada. O Brasil nunca teve juros básicos tão baixos.

Então, além do impacto futuro dos cortes promovidos até agora, ainda há o ineditismo dessa situação. Qual será o efetivo impacto sobre a atividade econômica de termos a menor taxa básica já registrada, próxima dos padrões internacionais das economias desenvolvidas, em um país “viciado” em juros elevados que, por muito tempo, esteve no topo do ranking global?

Só que a interrupção dos cortes não está tão certa assim, por vários fatores. Pra começar, o último corte ocorreu antes da divulgação da inflação de janeiro, que teve o IPCA com variação de apenas 0,21%, abaixo do piso das projeções e no menor nível desde o começo do Plano Real. Além disso, existe toda uma dificuldade para a economia entrar num ciclo de crescimento mais robusto e contínuo. Os dados da indústria, do fechamento de 2019, deixam claro que a crise não ficou totalmente para trás. A indústria ainda teve queda de atividade no ano passado.

Ainda, tem o cenário internacional, mais incerto, com a epidemia do coronávirus, que já está pesando na economia chinesa, mesmo com todos os estímulos que estão sendo lançados pelo governo, e deve ter repercussão sobre o andamento global, com reflexos também para o Brasil. Por enquanto, a queda dos preços de commodities e a instabilidade do mercado são os principais impactos por aqui. Mas muita gente já fala até em uma revisão, para baixo, das projeções de expansão da atividade por causa da epidemia. Parece cedo para essa revisão, mas é bom não esquecer das dificuldades que a economia brasileira já enfrenta, no processo de retomada, independentemente de novas questões externas.

O próprio Copom citou alguns desses pontos na ata da última reunião, divulgada nesta semana. O coronavírus, por exemplo, esteve em pauta, com as possíveis consequências que pode ter no exterior e para a economia brasileira. 

A porta parece ainda entreaberta para um novo corte dos juros, que não é provável, mas possível. Vai depender da evolução da economia e de essa evolução trazer ou não pressões sobre a inflação. Há uma boa possibilidade de o crescimento previsto daqui para 2021 não tirar a inflação de uma trajetória compatível com o cumprimento das metas.

De qualquer modo, mesmo sem novos cortes dos juros básicos, podemos esperar pelos efeitos de toda a flexibilização da política monetária que houve até agora. O crédito tende a ficar mais barato, até porque a retomada do crescimento, com alguma melhoria do emprego, deve reduzir o risco de inadimplência. Depois tem o aumento da confiança dos consumidores e empresas relacionado ao encaminhamento da agenda econômica. A própria combinação de juros e inflação baixos já reflete, em boa medida, o encaminhamento dessa agenda e colabora para o clima de maior confiança, assim como a Reforma da Previdência, formando um cenário propício para a retomada mais firme de investimentos e para o aumento do consumo. Sem esquecer que os juros mais baixos estimulam os investimentos em produção, direta ou indiretamente, inclusive, através de um maior interesse pelo mercado acionário ou de imóveis. Essas condições confirmariam um cenário mais benigno a médio prazo.

Porém, é preciso considerar toda a dificuldade que a economia brasileira ainda enfrenta para mostrar um desempenho efetivamente melhor, que vá bem além da recomposição de tudo o que foi perdido desde antes da recessão. E tem os riscos relacionados ao cenário internacional, que podem atrapalhar a confirmação das projeções mais otimistas. É por aí que não se pode descartar mais algum corte da taxa básica de juros, num ambiente em que a própria fraqueza da retomada ainda garanta uma inflação bem comportada. Sendo que a evolução mais favorável da economia ainda depende da implementação de mais reformas e medidas de ajuste das finanças, com melhoria do ambiente de negócios. Processo que pode ser prejudicado por todos os ruídos que ainda temos na área política.