O incerto caminho da retomada

O coronavírus continua impondo desafios globais inéditos, não apenas no controle efetivo da pandemia, mas também em relação aos desdobramentos da queda de atividade, induzida para conter a contaminação.

Essa situação leva à projeções muito pessimistas quanto ao desempenho das várias economias,  com tendência de agravamento dos desequilíbrios. Quase todos perdem, com exceção dos setores essenciais ou relacionados diretamente ao combate à pandemia.

Países pobres ficam mais pobres, assim como pessoas. Empresas já com dificuldades terão mais dificuldades. Há uma preocupação grande, inclusive, com o aumento da fome. No atual cenário de incertezas ocorrem situações totalmente inesperadas como o petróleo sendo negociado a preços negativos.

Até se poderia imaginar uma queda acentuada dos preços diante da diminuição forte da demanda. Mas o que se viu foi uma queda muito além da prevista, pelo tombo, também mais forte do que se esperava, da atividade econômica, inclusive, nos Estados Unidos. E foi justamente lá que o petróleo WTI chegou a ser cotado em mais de 30 dólares negativos nos contratos com vencimento em maio.  Passado o vencimento, em que os operadores do mercado futuro evitaram a entrega física do produto, por dificuldade de armazenagem, ainda se vê os preços desafiando os cortes de produção já decididos pelo países produtores.Esse é um dos aspectos do ineditismo imposto pela pandemia. 

O mundo está diante do desafio da retomada da atividade, com flexibilização do isolamento social, sem dar margem para novos aumentos do número de contaminados e mortes. Qualquer piora da curva da pandemia pode levar a novos fechamentos e especialistas na área de saúde trabalham muito com essa hipótese, a não ser que haja confirmação da eficácia de alguns tratamentos ou resultados positivos dos testes de vacinas. O Brasil segue o mesmo caminho, da flexibilização com cautela, com toda a polêmica política que envolveu essa questão desde o início.

A retomada das atividades começa a ocorrer em ambiente incerto, sem muita precisão quanto à gravidade da doença por aqui, dada a insuficiência de exames que possam dar maior confiança quanto aos números efetivos da contaminação. É esperar que os procedimentos estejam corretos do lado da saúde, porque isso será determinante para a continuidade do encaminhamento de medidas que possam aliviar o quadro econômico. Os primeiros indicadores de atividade pós pandemia, dados do emprego e balanços trimestrais não deixam muita dúvida quanto ao forte impacto do coronavírus pelo mundo. 

No Brasil as projeções mais pessimistas indicam uma queda do PIB, no ano, de até um pouco mais de 5%. A paralisação dos caminhoneiros pode ser uma boa referência. E é preciso levar em conta que o País já vinha com muitos problemas, como tenho ressaltado nesse espaço, que podem ser agravar, como o desemprego, que amarra o potencial de expansão do consumo, com as empresas machucadas financeiramente, consumidores perdendo renda, mesmo que ainda empregados, assim como os que exercem atividade própria. Fica a dúvida com relação ao papel que o governo terá não apenas para amenizar os efeitos da pandemia, como vem ocorrendo, mas para dar suporte aos vários ramos de atividade e às iniciativas que possam reverter a crise no pós pandemia. Ainda se vê muita resistência da equipe econômica em assumir a liderança no processo de reativação.

É o inverso do que estava em pauta. O liberalismo econômico não combina com a injeção maciça de recursos pra fazer a economia andar. Não se deve pensar numa flexibilização dos controles de gastos que comprometa a reestruturação das finanças a longo prazo. É preciso estabelecer limites conforme as necessidades urgentes no combate à pandemia, sem aumentar despesas estruturalmente.

Aliás, seria importante aproveitar o momento para conter gastos com o funcionalismo, além de colocar travas na evolução das finanças dos Estados e municípios. Mas benefícios sociais podem ser mantidos por muito mais tempo pela recessão que o País ainda irá encarar e pode demorar para ser superada.

O coronavírus deixou mais explicita a desigualdade social, permitindo um retrato mais claro das condições financeiras da população, onde milhões de pessoas estavam invisíveis. É um dos motivos de todo o atraso que ainda se vê na liberação do benefício de 600 reais e mesmo do Bolsa Família. Na retomada se pensa numa aceleração de investimentos, de concessões, de privatizações.

Mas haverá ambiente para isso, com o resto do mundo também enfrentando sérias dificuldades, com os empresários locais mais cautelosos e as desconfianças que o Brasil ainda gerava, até por impasses políticos, que ainda persistem e até se agravaram em alguns aspectos? É importante que as estratégias de saída da crise considerem, de forma realista, todos esses aspectos. De modo algum se pode imaginar que retomando a atividade a máquina possa voltar a funcionar de uma maneira mais vigorosa. Vai voltar, mas com lentidão e depois de ter retornado várias casas no processo de reestruturação que ainda tinha um longo e desafiador caminho pela frente. O setor público não pode se omitir da importância que terá na recuperação do fôlego da economia, o que envolve um forte suporte financeiro para as empresas e cidadãos.