Como fica a economia com insegurança institucional?

O Brasil tem imensos desafios pela frente no que se refere ao combate à pandemia e à crise econômica que ela vem provocando. Ainda estamos com curva ascendente de casos, que mantém as dúvidas quanto à flexibilização das medidas de isolamento social, paralelamente à constatação de como a economia pode ser prejudicada, antes mesmo de ter superado os reflexos da crise anterior.

Até aí nenhuma novidade. O mundo passa por dificuldades semelhantes. Mesmo que não sirva de consolo, é a situação que muitos países terão de enfrentar. A particularidade que seria dispensável é termos de enfrentar, simultaneamente, uma crise política. 

São disputas e embates para todos os lados, desde como combater a pandemia, com o presidente questionando medidas de isolamento adotadas por Estados – situação que levou, inclusive, à demissão do ministro Mandetta, da Saúde – até às divergências quanto ao socorro financeiro para os Estados e municípios. No Brasil temos a politização da pandemia, que inclui a recomendação de medicamentos ainda sem a eficácia comprovada cientificamente. Tudo pelo receio de que o combate à pandemia possa fazer crescer demais o desemprego, como se houvesse escolha entre uma coisa ou outra. Altos índices de contágio, certamente, não colaboram para um melhor quadro econômico.

Mas a crise política vai bem além. Tivemos a demissão do agora ex-ministro Sérgio Moro, da Justiça e Segurança, após a demissão do superintendente da Polícia Federal, com Moro acusando o presidente Bolsonaro de querer interferir na PF em busca de informações sobre investigações. O que desencadeou uma série de efeitos colaterais, desde abertura de processo para averiguação de denúncias até sucessivos pedidos de impeachment contra o presidente, por uma série de crimes que teria cometido. 

Ainda, existem averiguações da postura do presidente no combate ao coronavírus, pelo fato de, em várias ocasiões, ter estimulado aglomerações. Em uma delas, Bolsonaro acabou se confraternizando com manifestantes que defendiam o AI5, numa clara posição contrária à democracia e ao que está na Constituição. Isso sem esquecer a resistência em mostrar o resultado do exame que fez para detectar se teve ou não a doença. Mais um motivo de disputas judiciais.

Independentemente de todo esse processo poder ameaçar a posição do presidente, Alguns efeitos colaterais são inevitáveis. Há um claro aumento das incertezas relacionado à insegurança institucional. 

E incertezas que chegam à economia, não só pelos fatos citados, mas também porque Paulo Guedes, tido como um dos pilares de modelo de governo estruturado por Bolsonaro, passou por uma certa “fritura” com o anúncio de um programa de estímulo econômico focado nos investimentos em infraestrutura com recursos públicos. O Pró Brasil começou a ser desenhado sem a equipe econômica, gerando críticas do próprio Guedes, por contrariar sua visão de política econômica, que pretende  retomar, quando a pandemia der uma trégua. 

O ministro não abre mão de disciplina fiscal, ainda que agora esteja tendo de abrir os cofres para gastos muito além do que se poderia imaginar. Talvez percebendo o tsunami que poderia enfrentar com a saída de Guedes, na sequência de Mandetta e Moro, o presidente resolveu prestigiar, novamente, o “posto Ipiranga “, dizendo que é quem decide na economia.

Mas é certo que vai cobrar estratégias desenvolvimentistas. E é importante que se pense em saídas para a crise. O ministro sabe disso. Mas foi mais uma incerteza a causar pressão no mercado e insegurança quanto aos rumos do País.
Se antes já não estava fácil atrair capital, como vai ficar a situação no pós pandemia, com esse alvoroço permanente que temos no Brasil. Não bastava a crise na saúde e na economia? Precisava ter crise também na política? Questão que nos remete, inevitavelmente, a outras incertezas. O que pode estar por trás de tanto alvoroço e até onde pode nos levar?