As dores do enclausuramento

Pouco menos de dez anos atrás, no auge da minha juventude rebelde e revolucionária – talvez menos revolucionária do que eu gostaria e, certamente, mais rebelde do que a minha família esperava –, visitei pela primeira vez o Memorial da Resistência de São Paulo. A ocasião era a de um projeto multidisciplinar do segundo ano do Ensino Médio, o qual envolvia a história do Brasil, sociologia, filosofia e literatura. Seguindo a cronologia, tínhamos recentemente finalizado os estudos sobre o governo JK e a breve passagem de Jânio Quadros pela Presidência. A partir de então, o foco era Jango e o Golpe.

Saímos, um grupo de quase sessenta alunos, da rua Tabapuã, no Itaim Bibi, rumo ao centro da cidade de São Paulo. Indivíduos que observavam o estranho movimento no ponto de ônibus não saberiam distinguir de qual escola progressista de renda média-alta (para esta suposta contradição, tínhamos um vasto repertório de respostas) eram aqueles jovens. O retrato era o seguinte: muitos cabeludos, alguns com seus tênis All Star de cano alto, outros – ainda a descobrir suas personalidades – com um espírito menos transgressor.

Mochilas desgastadas, camisetas da moda politizada, óculos fundo de garrafa e aquele ímpeto pelo novo; aquela vontade de se desgarrar de todas as amarras sociais. Uma clara mensagem de afronta a tudo e a todos que representavam o universo adulto e, por associação, careta. Afinal, já estávamos quase nos formando e levávamos conosco o ainda ingênuo sentimento do mundo drummondiano.

O Memorial ocupa uma parcela de mais um prédio centenário arquitetado pelo ilustre Ramos de Azevedo, também autor de projetos como o Teatro Municipal e o Palácio das Indústrias. Localizado no centro da cidade, no Largo General Osório, número 66, o museu, na verdade, não deveria nem existir. O mesmo prédio deu lugar, do ano de 1940 a 1983, ao Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops/SP). Nesse local, funcionou uma das polícias políticas mais truculentas do País, especialmente durante o regime militar. Hoje, o Memorial da Resistência guarda relatos e testemunhos de uma realidade passada, mas que precisa ser constantemente rememorada para nunca mais ser revivida.

O Deops prendeu gente de todo o tipo. Ricos, pobres, famosos e desconhecidos passaram pelas celas de uma das principais localidades para as quais presos políticos eram encaminhados. A tortura não era repugnante, ao contrário, era incentivada como método de coleta de inteligência para o braço pesado e cruel da ditadura.

Visitamos o Memorial cientes do peso que ele carregava. Do finado DOPS, muito se preservou em termos espaciais. As celas foram mantidas, com mensagens dos presos nas paredes – algumas de esperança, outras apenas desabafos de indivíduos que, pouco a pouco, iam perdendo suas faculdades mentais em meio ao submundo da prisão.

Massao, Castor e Olímpio, três dos meus professores, tiveram o infortúnio de passar algum tempo presos. O primeiro, professor de biologia do Ensino Médio, foi ao Museu conosco. Assim como a turma, Massao vivia intensamente sua juventude em uma época em que, inclusive, ideias socialistas eram transpostas dos livros para a realidade, da teoria para a prática – como no caso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). O jovem, descendente de japoneses, nutria certo apreço pelas ideias mais à esquerda e, em tom leve e descontraído, comunicava-se de vez em quando com um amigo de infância que havia deixado o Brasil, temporariamente, para um intercâmbio estudantil.

Nas cartas, havia pensamentos, análises e opiniões sobre os mais variados assuntos. Uma conversa normal entre dois colegas próximos, nada de criminoso. Ao final, meu professor de biologia fazia questão de assinar, em tom jocoso, como “Massao Tse Tung”, já que seu colega – cujo nome agora me foge – complementava seu nome com alguma variante do líder da URSS, Lênin.

Com o advento do regime militar, porém, tornou-se comum a interceptação de cartas a fim de desmantelar eventuais subversões ao sistema. Assim, o que era uma inocente brincadeira ideológica culminou na prisão de Massao, que foi levado de sua casa, por agentes do DOPS, para a prisão no centro de São Paulo.

Não posso imaginar, nem transmitir ao leitor, o que eram os dias enclausurados naquelas celas. Massao conta, contudo, que não eram nada bonitos. Outros relatos de presos políticos também apontam sempre para a mesma direção – se existia um inferno na terra, era ali que ele tomava forma. Durante cerca de 40 dias, o biólogo compartilhou com outros companheiros a dor de estar preso sem ter cometido nenhum crime. A privação de liberdade de maneira arbitrária era um terrível castigo àqueles que desfrutavam das primeiras décadas de vida – e que, naquela situação, não sabiam o que seria de seus futuros.

O porão do Dops, como ficou conhecido, era insalubre e superlotado. Alguns presos, infelizmente, não saíram de lá, seja pela má condição de saúde, seja por não terem resistido às torturas do delegado Sérgio Paranhos Fleury, algoz de incontáveis opositores da ditadura, que trabalhou no local de 1964 a 1978. Naquele local, a noção do tempo era perdida e a única oportunidade de ver o ar livre ocorria apenas uma vez por semana, com o banho de sol no estreito corredor, o mesmo da fotografia abaixo.

Corredor do Deops, hoje o Memorial da Resistência

Em algumas situações extraordinárias, uma bola de futebol era disponibilizada pelos guardas e os presos organizavam uma pelada, que ocorria nesse mesmo corredor. Segundo Massao, era o momento em que mais se lembrava da vida de fora das celas.

Meu professor não teve sequelas, apesar de ter sido levemente torturado vez ou outra. Teve sorte, também, de ter sido preso quando a fase mais pesada da ditadura já minguava. Foi liberado após quase um mês e meio vivendo nos porões do regime, que enfrentava já diversos questionamentos sobre violações civis e de direitos humanos.

O que mais me marcou, certamente, foi o ritual dos presos quando algum dos seus companheiros era solto, reconquistando sua dignidade e liberdade. Das janelas, entremeadas pelas barras de ferro, os presos cantavam a Suíte do Pescador, de Dorival Caymmi: Minha jangada vai sair pro mar / Vou trabalhar, meu bem querer / Se Deus quiser quando eu voltar do mar / Um peixe bom eu vou trazer / Meus companheiros também vão voltar / E a Deus do céu vamos agradecer.

O relato pessoal de um professor de biologia, a visita ao Museu e os apreços pela vida e pelos direitos de ir e vir e de pensar livremente foram fundamentais para a construção de quem sou e para sempre ficarão marcados em minha memória. Espero que este texto sirva como prova empírica de como faz mal a uma democracia ter um líder que abertamente defende um regime tão cruel e desumano.