Uma crise para tirar boas lições

A pandemia do coronavírus tende a ter um impacto sobre a economia brasileira mais pesado que crises anteriores. Tivemos a divulgação do levantamento do IBGE, referente à produção industrial, com recuo de 9,1% em março sobre o mês anterior. O resultado foi próximo do tombo registrado em maio de 2018, de 11%, quando o País sentiu os reflexos da greve dos caminhoneiros.

Ainda que naquela época os efeitos também tenham tido um prazo para além da paralisação, não houve desorganização tão forte como está havendo agora. A greve produziu um problema sério de logística. Agora enfrentamos uma crise de demanda e de oferta com a paralisação de várias áreas. É uma interrupção de atividade também inesperada, mas que tem levado a uma onda de inadimplência, demissões ou cortes de salários, comprometendo a sobrevivência de empresas, com sérios desarranjos financeiros, assim como ocorre com a renda dos trabalhadores. Isso não vai passar tão rápido, mesmo com as medidas emergenciais lançadas pelo governo, as renegociações de dívidas e até novas linhas de crédito que continuam enfrentando gargalos, para que os recursos cheguem na ponta final.

Em meio a toda essa desorganização no setor privado, temos um aumento forte dos gastos e do endividamento do setor público, com medidas reestruturantes sendo postergadas. Enfim, a economia, que ainda tentava entrar nos trilhos, deu uma freada brusca, que bagunçou tudo. Vamos sair dessa mais pobres, mais endividados e mais longe da reestruturação que vinha sendo encaminhada desde a última crise, que foi uma recessão histórica. Para completar o cenário desafiador, ainda teremos um ambiente global mais hostil, com os países mais focados na própria reorganização – mais fechados.

Por mais que os organismos internacionais busquem saídas coordenadas, até para minimizar o avanço da pobreza e da fome, que é outra realidade imposta pela pandemia, a globalização deu alguns passos atrás. Haverá liquidez, num ambiente de juros bem mais baixos, mas com investidores muito mais cautelosos. As Bolsas terão condições de se recuperar, inclusive porque o tombo já foi pesado e alguns setores e empresas ganham mesmo em meio à crise. A necessidade de incorporação de novas tecnologias pode levar a avanços interessantes, mas são mudanças que ampliam defasagens. Se a indústria local ainda lutava pra engatar uma expansão mais contínua e ganhar competitividade, a freada agora pode produzir defasagens ainda maiores.

Mas temos de sair dessa. O Brasil já tinha um diagnóstico correto do que deveria ser feito. Não podia continuar com o brutal desequilíbrio das finanças públicas produzido por muita gastança irresponsável, inchaço da máquina pública e até desvios de recursos. Não há qualquer garantia que esses desarranjos não possam continuar. Só que a sociedade estará muito mais atenta a desvios de finalidade. A urgência de liberações de recursos não pode sancionar a irresponsabilidade fiscal. Continua presente também a necessidade de reduzir o tamanho do Estado. Sendo que o caos que se verificou na Saúde mostra bem onde o Estado deve estar mais presente.

Por outro lado, no processo de reestruturação, o País tem ativos a vender, nada que chegue perto do 1 trilhão de reais citado por Guedes, mas há um bom espaço para avançar com concessões, privatizações, venda de bens e participações. Reformas, especialmente a administrativa e uma tributária, melhor modelada, podem ser retomadas, assim como o pacto federativo, agora embasado em tudo que foi discutido para a ajuda aos Estados e municípios. Até a classe política discutiu e tomou algumas decisões no sentido de cortar as próprias despesas.

Por mais que seja penoso o caminho a ser trilhado pelo País, podemos tirar lições importantes. Isso também no âmbito pessoal e do gerenciamento das empresas. Muita gente percebeu a importância de lidar melhor com as finanças, de ter uma poupança, uma reserva, estruturas mais enxutas.

O País também está sendo forçado a perceber o quanto que é importante reduzir a pobreza, melhorar a assistência aos mais desfavorecidos, aos “invisíveis”. Sem cuidar das desigualdades, o País fica muito mais vulnerável às crises. Assim como as finanças desequilibradas, em todos os sentidos, nos deixam mais frágeis. Que a crise deixe boas lições de novas práticas a serem seguidas, E é importante ficarmos atentos para que a maior racionalidade também prevaleça na política, já que, em meio à crise sanitária e à econômica ainda estamos tendo de encarar uma crise política, com contornos também indefinidos.