Incerteza domina 2020

São tempos estranhos, com certeza A palavra do momento é incerteza. Outro dia conversava com amigos – via ligação de vídeo – sobre a rápida escalada do coronavírus e sobre o desconforto em se usar máscara. Quem diria: pouco tempo atrás, olhávamos com desdém para a China, país que obrigava seus cidadãos a usarem máscara todos os dias em função da péssima qualidade do ar.

Curiosamente, dizem por aí que a qualidade do ar vem melhorando em São Paulo. Ainda assim, agora somos nós que temos de usar máscara para cima e para baixo. Por decreto, quem não a usar toma multa.

Não se sabe até quando será necessário o isolamento social. Não se sabe quantos milhões de brasileiros ficarão desempregados, reflexo da paralisação das atividades econômicas. Tampouco se sabe quando, ou se, descobriremos uma vacina ou remédio eficiente contra a Covid-19. Em meio a tanta incerteza, o melhor a se fazer é… nada. No linguajar comum, sentar e esperar.

Isso vale também para os investimentos. Diante de tanta nebulosidade, não é possível nem apostar contra o mercado, operando vendido. Por outro lado, com as recentes quedas nos ativos, realizar as operações também pode ser sinônimo de prejuízo – e sabe-se lá quando haverá uma nova alta nos preços. Eu, particularmente, estou encarando a crise como uma oportunidade para poupar algum dinheiro, mas não coloquei um dedo sequer no dinheiro que tenho já investido.

Não é exagero começar a encarar 2020 como um ano perdido. O coronavírus tomou praticamente todo o primeiro semestre. Além disso, como podemos ver ao redor do globo, há sérias preocupações quanto a uma possível segunda onda de contágio. Nesse sentido, é mais provável que a suposta volta à normalidade – se é que podemos falar sobre isto – ocorra em 2021.

No caso do Brasil, dobramos a meta – tradicionalmente, um tempero a mais é sempre bem-vindo na confusão. A incerteza econômica tem origem no coronavírus, mas não somente: temos um dólar alto e receios de descontrole cambial, um quadro fiscal que voltou para o status de doente e a necessidade de amparar uma enorme massa de desempregados e cidadãos que não vivem, apenas sobrevivem.

As projeções de PIB, no momento, são pouco eficazes. Mesmo assim, vale citá-las para entender o quão incerto é o futuro próximo. Entre analistas, alguns projetam uma retração do crescimento de mais de dois dígitos. Já outros, muito mais tímidos, preveem uma queda de apenas 1% no PIB. Nem parece que estamos falando do mesmo País.

Da mesma forma, o número exato para o desemprego até o fim do ano permanece uma incógnita. O que temos, hoje, é cerca de 12% da população em situação de desocupação. Alguns estudos apontam para 15, 16 e até 18% ao final de 2020.

Para além dos desafios no campo econômico, ainda existem os inúmeros imbróglios políticos que tornam a crise mais profunda. O presidente já se mostrou inábil politicamente, a agenda reformista está estagnada e ainda existe a possibilidade de impeachment, uma vez que a saída de Sérgio Moro do governo veio carregada de acusações ao presidente de interferência política na Polícia Federal.

Ao relutar em exercer o isolamento social de modo mais duro no início, o Brasil ainda enfrenta, sem sucesso, a crescente curva de contaminados e mortos. É bem verdade que o presidente não ajudou em nada nesse processo. Ficamos, portanto, entre a cruz e a espada: antes leniente com o problema, agora o País precisa manter o isolamento por um tempo maior que o esperado, prejudicando ainda mais as atividades econômicas.

Nessa toada, 2020 vai passando: monótono no cotidiano, mas objeto das mais variadas teorias sobre o que será do futuro – este considerado, do ponto de vista sociocultural, potencialmente explosivo. Para aqueles com grandes planos e sonhos para o ano, o melhor a se fazer é adiá-los. A incerteza, infelizmente, consegue ser maior que os desejos.