Eficiência é chave para retomada

Os indicadores de março, que pegaram parcialmente o impacto das ações de isolamento social adotadas nas várias esferas de governo – para conter a pandemia – já dão uma boa ideia do que poderemos encarar em termos de retração da atividade.

Foram tombos históricos, que devem ter se aprofundado em abril, mês de ampliação das medidas restritivas, sem muito alívio agora em maio. E não tem como fugir desse processo. Com maior ou menor intensidade, os vários países atingidos pelo coronavírus passam por contrações que estão entre as piores da história. O que será diferente é a forma como cada um irá cuidar da retomada e as condições preexistentes.

O Brasil continua dividido entre a necessidade do governo manter o intervencionismo ou voltar a focar no ajuste fiscal, deixando a retomada com o setor privado. No entanto, essa não é uma definição apenas técnica ou uma opção de política econômica. A crise decorrente da pandemia mostrou desequilíbrios sociais e de renda, além de carências bem maiores que se estimava. 

A busca pelo auxílio emergencial, independentemente de tentativas de fraude, trouxe à realidade milhões de brasileiros invisíveis, que não apareciam sequer nas estatísticas da informalidade ou de dependentes de programas sociais. O desemprego tem crescido à margem das flexibilizações de contratos, como mostram os pedidos de seguro desemprego. 

Por mais que a flexibilização do isolamento social e a reabertura de empresas, mais à frente,  possam garantir uma reação do mercado de trabalho, o que se prevê é um imenso contingente de brasileiros sem renda ou com renda ainda mais precária. Situação que, talvez, obrigue o governo a manter, por mais tempo, programas como o auxílio emergencial, além da ampliação do Bolsa família, sem esquecer de ações semelhantes implementadas por Estados e municípios. Só isso já vai representar uma importante intervenção no andamento da economia.

Mas ainda tem os problemas do lado empresarial, com setores duramente atingidos pela crise, com fortes desequilíbrios financeiros, até por um maior endividamento e dificuldades de retomada. Como prever qual será a demanda no setor de turismo, entretenimento e até comércio pós pandemia, com a população, provavelmente, muito mais cautelosa por questões sanitárias e até de renda? 

Difícil imaginar que o setor privado possa assumir o protagonismo da aceleração da atividade, sem um empurrãozinho do governo. Mas aí tem a questão fiscal. Dada a deterioração esperada das finanças públicas neste ano, até se conta com a possibilidade de algum aumento ou até criação de tributos para reforço da arrecadação e da receita. A própria equipe econômica já voltou a cogitar a CPMF, pra desonerar a folha e favorecer o emprego, entre outras estratégias. Estratégias que também podem esbarrar na fraqueza da atividade que teremos pela frente.

Por tudo isso, o mais provável é que o ajuste fiscal fique para depois ou até que o setor privado se recupere dos danos acusados pela pandemia, o que pode levar um bom tempo. Daí a cobrança, desde agora, de ações que o governo já deveria ter levado adiante, como a reforma administrativa, pra reduzir despesas com a máquina pública, a tributária, para estabelecer um sistema menos penoso para o setor produtivo, e as concessões e privatizações, atraindo parcerias até para melhorar a infraestrutura e a competitividade do País, além de estimular a atividade e o emprego. 

Para que tudo isso possa avançar será preciso ter espaço político e inspirar confiança, com maior segurança institucional, maior capacidade de negociação entre os poderes e compromisso com o ajuste fiscal. Mesmo que haja necessidade de gastar mais, por mais tempo, que esses gastos não se tornem permanentes ou passem a ideia de irresponsabilidade. 
Como já observei, todos os países atingidos pelo coronavírus, com maior ou menor intensidade, estão passando pelo mesmo processo. O que será diferente é a forma como cada um irá cuidar da retomada e as condições preexistentes. As nossas condições já não eram as melhores. O jeito é mostrar eficiência pra driblar as adversidades durante e no pós pandemia. Só que, por enquanto, tem faltado eficiência, em termos de País, até para conter o avanço do coronavírus.