Pós pandemia pode ser mais desafiador que o pós recessão

As projeções para a economia brasileira não param de piorar. E isso, hoje, tem muita relação com a incapacidade que o País demonstrou em adotar uma estratégia mais coordenada e eficaz de combate à pandemia. Na verdade, o que se viu foi desperdício de uma vantagem garantida pelo atraso com que a pandemia chegou por aqui e pela experiência vivida por outros países. Não foram tomadas as precauções necessárias nem o isolamento social que poderia ter produzido resultados mais rápidos. O fato é que passamos dois meses entre erros e acertos, com interrupção parcial das atividades – nem por isso menos danosa – sem que houvesse controle da pandemia.

Os números continuam piorando e por causa disso a agonia do ponto de vista econômico pode se arrastar por mais tempo. Não dá pra reabrir de forma mais significativa porque poderia impulsionar a contaminação. Mas, por outro lado, impor um lockdown depois de semanas com a população tendo a movimentação restrita, com perda de renda para trabalhadores e empresários, fica muito mais complicado, até do ponto de vista político.

Importante observar que a postura do presidente Bolsonaro pode ter contribuído para isso, na medida em que sempre se colocou contra o isolamento e menosprezou os riscos do que classificou como gripezinha. É uma postura que leva muita gente a deixar de lado e também questionar o isolamento. Sem esquecer que as sucessivas crises políticas, até com a demissão de dois ministros da Saúde, também reforça um clima de incerteza e de desorganização que é tudo o que um País não precisa para fazer frente a desafios tão pesados como os impostos pela pandemia.

O Brasil, que já vinha com sérias dificuldades para garantir uma retomada mais expressiva, no pós recessão, pode ter as dificuldades multiplicadas no pós pandemia, com mais desemprego, empresas mais endividadas e até quebradas, maior rombo das finanças públicas e menos credibilidade. Menos credibilidade, sim, pela forma como o país está lidando com a pandemia, pela insegurança institucional que vem de tantos ruídos políticos e embates entre os poderes e pela perspectiva de uma recessão inédita, com imensos rombos das finanças públicas, fora o endividamento, que pode passar dos 90% do PIB.

Ainda dá pra minimizar esses danos, começando por medidas mais eficazes para conter a pandemia, que não passam pelo protocolo de uso da cloroquina, sem restrições, no sistema público de saúde. Pode até ser usada, mas com todos os cuidados recomendados pela ciência, não por decisão política como se cogita. Depois, seria ótimo ter uma pacificação no campo político, o que parece bem improvável. Por fim, em relação à economia, aumentar os gastos é inevitável, o mundo está passando por isso.

Mas pra não sair com a avaliação muito prejudicada é importante que haja algum compromisso com o ajuste das finanças mais à frente, sem tornar permanentes gastos decorrentes do combate à pandemia e seus efeitos. Só como exemplo, os reajustes salariais do funcionalismo, que ocorreram em meio às discussões sobre a ajuda aos Estados, que deveria ter como contrapartida exatamente a suspensão dos reajustes, não é exatamente o que se espera em termos de compromisso com o fiscal. A crise ainda está sendo desenhada.