Juros e Inflação em patamares inéditos de baixa

A combinação juros e inflação vai testando novos limites de baixa. A pandemia de coronavírus e as consequências que ela vem trazendo para a economia global e a brasileira têm induzido uma acomodação forte de preços.

Um dos principais movimentos foi do petróleo, cuja queda da demanda produziu movimentos inéditos, inclusive com preços negativos em alguns momentos. Mesmo que a cotação esteja reagindo no exterior, com a retomada da atividade de várias economias e a queda dos estoques, esse ainda é um dos fatores que têm contribuído para a deflação no Brasil.

O IPCA 15, prévia da inflação oficial, recuou 0,59% em maio, a maior queda desde 94, com o acumulado em 12 meses caindo para 1,96%. 
Além dos combustíveis, a demanda fraca tem segurado preços que, normalmente, estariam subindo nesta época do ano, como vestuário. E, embora o consumo esteja maior maior em outros segmentos, como informática e eletrodomésticos, dando margem até para alguns reajustes, no geral, os preços seguem bem comportados. Não se trabalha com a perspectiva de pressões mais fortes, até pela previsão de recessão histórica da economia, que pode passar dos 7% neste ano. 

É por todos esses fatores que o mercado, de acordo com o último relatório Focus, prevê o IPCA em 1,57% no fechamento de 2020. Este cenário, benigno para a inflação, num contexto de fraca atividade, aumenta a probabilidade de mais cortes da taxa Selic, hoje em 3% ao ano. O Banco Central, por maior a cautela que tenha de ter em um ambiente de muitas incertezas, especialmente com a piora acentuada das finanças públicas, tem uma meta inflacionária a ser cumprida. Com a projeção de inflação bem abaixo do piso da meta, que é de 2,5%, a tendência é de mais cortes dos juros básicos pra tentar fazer com que a inflação, pelo menos, fique mais perto desse piso. Já se considera a hipótese até de juros negativos. 

O fato é que a combinação juros/inflação tende a ficar em patamares mais baixos, o que pode favorecer, mais à frente, a retomada da atividade. Hoje é difícil imaginar uma reação mais forte do consumo, dadas as consequências negativas da pandemia sobre a atividade econômica, o emprego e a renda. Mas já temos amostras pelo mundo de reações até significativas no processo de reabertura. Afinal, nem todos tiveram o poder de compra prejudicado pelas crises de saúde e na economia.

O Brasil tem problemas de transmissão dos cortes da Selic para o varejo. O sistema de crédito tem se mostrado até mais seletivo pelo aumento do risco de calote, mesmo com todas as alterações de regras e a criação de novas linhas como forma de irrigar recursos para as empresas.

Mas, no pós pandemia, a Selic mais baixa poderá ajudar a dar impulso maior à retomada, na medida em que prepara o terreno para condições mais favoráveis de crédito, assim como a inflação mais contida deve ajudar a melhorar a capacidade de compra. Por mais debilitada que esteja a atividade econômica, não se pode descartar o potencial de estímulo que virá dos patamares inéditos de baixa da inflação e dos juros.