Em meio às crises, já se começa a ver luz no final do túnel

O mundo está em transformação em função da pandemia. Após medidas emergenciais na área da saúde e da economia, por parte dos governos, e ajustes rápidos das empresas em meio à necessidade de isolamento, começamos a contabilizar os resultados. 

No Brasil, em particular, temos os números de contaminação ainda avançando paralelamente à gradual retomada de atividade. Situação diferente do exterior, que vem reabrindo tendo números decrescentes da doença. Isso nos dá mais incerteza nos dois sentidos – de controle da pandemia e continuidade da reabertura. A abertura, talvez precipitada em algumas cidades, é muito induzida pela situação econômica, pelos dados que estão sendo contabilizados.

Na semana passada tivemos a confirmação de queda de 1,5% do PIB no primeiro trimestre, com a perda de 5 milhões de empregos. Os com carteira assinada tiveram perda de um milhão e cem mil vagas que, só não foi maior, pela flexibilização dos contratos, que implica redução da renda para boa parte dos mais de oito milhões de trabalhadores que estão tendo corte da jornada e dos salários, mesmo com a compensação dada pelo governo. 

Com base nos dados do PIB do 1º tri e do emprego, além de indicadores setoriais de abril e maio, o mercado já ampliou a projeção de tombo do PIB para 6,25% este ano, conforme o Boletim Focus desta semana. A inflação, prevista em 1,55%, quase um ponto abaixo do piso da meta, o que reforça a tendência de mais corte da Selic, poderia até ser um dado positivo, não fosse o fato de estar relacionada à perspectiva de retração histórica da economia, que pode ir além do que o mercado está prevendo. 

Importante observar que a reabertura, mesmo que prossiga sem maiores sustos, não garante retomada de atividade nos padrões pré crise, já que a população segue temerosa com relação à pandemia e ainda sente, por outro lado, o impacto da crise econômica. Shoppings reabertos pelo País estão com movimento 70% menor; o comércio de rua, 40%. Não se conta muito com uma recuperação em V da economia e, agora, o esforço maior deve ser no sentido de assegurar, pelo menos, que ela ocorra em U e não em L. A flexibilização do isolamento vai nesse sentido, que é o de evitar um aprofundamento da crise. Da mesma forma que se espera que o governo consiga, finalmente, destravar o crédito para dar oxigênio as empresas que, mesmo voltando a trabalhar, podem demorar para recuperar as perdas acumuladas nos últimos meses, o que tem impacto sobre o emprego e todo o potencial de reação da economia. 

A MP que institui o Programa Emergencial de Acesso ao Crédito e faz alterações em duas leis, na tentativa de fazer os recursos chegarem às pequenas e médias empresas, além da possibilidade de demissões no âmbito da flexibilização dos contratos, mostram a preocupação do governo em preservar empresas, o que pode ajudar na reação da atividade. As demissões podem até aumentar mas, em princípio, se poderia ter mais condições de recontratação mais à frente. O que vai depender muito da capacidade de a economia se reorganizar e acelerar a atividade, incluindo, claro, um maior controle da pandemia. É o que pode estabelecer uma confiança básica. Depois, virá a confiança nas perspectivas da economia com foco na proposta de agenda anterior à crise, que passa por reformas, diminuição do tamanho do Estado onde é menos necessário. 

Aliás, a pandemia deixou claro onde o Estado é imprescindível, onde deve estar presente em momentos de maior dificuldade e com necessidade de mais eficiência do que vem demonstrando. Isso em áreas como saúde, educação, segurança, logística. O mercado financeiro, em geral, tanto aqui como no exterior, está apostando muito no que virá no pós abertura. A recuperação das Bolsas nos últimos dois meses, aqui e no exterior, mostra que o mercado já precificou a recessão generalizada, já sabe mais ou menos o que esperar de piora dos indicadores e tenta antecipar a retomada mais à frente. Sendo que algumas economias podem dar respostas mais aceleradas, especialmente as do hemisfério norte. A América do Sul, incluindo o Brasil, ainda convive com riscos mais sérios relacionados ao controle da pandemia. 

Mas é bom se ter a perspectiva de uma volta à normalidade em meio à todas as perdas ocasionadas por essa situação inédita vivida pelo mundo. Mesmo que a reposição de perdas demore para ocorrer em sua integralidade, a perspectiva de melhora ajuda a economia a respirar melhor, sem temores que acabam comprometendo a capacidade de reação.  Importante notar que, além da reação mais otimista do mercado, apesar de temores como os relacionados à ondas de manifestações, embates políticos e crises mais pontuais como entre China e Estados Unidos, os índices de confiança também têm melhorando, sem empolgação, mas estão saindo do negativismo mais acentuado que houve nas primeiras semanas da pandemia. O mundo começa a ver uma luz no fim do túnel, apesar das pedras e desvios que ainda tem no caminho