O pior pode ter ficado pra trás

As preocupações com o coronavírus continuam presentes nas várias economias e deve continuar assim, até que haja uma vacina ou medicamento efetivamente eficaz ou que alguma outra coisa, como a imunização de rebanho, permita que se tenha maior segurança quanto à contenção da epidemia. Porém, independentemente dessas incertezas, as projeções pararam de piorar. No Brasil, por exemplo, já temos o mercado trabalhando com a previsão de uma queda do PIB, neste ano, ao redor de 6,5%, mesmo que alguns analistas ainda considerem que possa chegar à faixa dos 7%. No exterior, várias economias mostram indicadores até melhores que se previa, embora nos países desenvolvidos se trabalhe com a perspectiva de retrações maiores que a do Brasil e dos emergentes, em geral.

Os programas de estímulo fiscais e monetários, com a manutenção de juros perto de zero, têm colaborado bastante para essa estabilidade e até para uma certa confiança quanto à possibilidade de o pior já ter passado. No caso brasileiro o pior momento deve ter sido abril, quando o isolamento social foi o mais amplo desde o início da pandemia. A reabertura, se não repõe o que se perdeu em termos de movimento, demanda e produção, pelo menos, estabelece um novo padrão de normalidade que permite que se possa considerar uma melhora daqui pra frente, claro que sobre uma base de comparação – importante ressaltar – das mais baixas em termos históricos. Mas é isso. A pandemia estabeleceu um novo normal, a partir do qual se terá de produzir o melhor ritmo de recuperação possível.

Retomando a situação do Brasil, mesmo que se tenha de levar adiante programas sociais e de estímulo ao crédito, ganha força a percepção de que qualquer chance de uma retomada sustentável passa pela retomada da agenda de reformas e de ajuste das finanças. De novo, com base em um novo normal. Os gastos emergenciais fizeram explodir o rombo das finanças. Essa será a realidade de 2020. Mas, se esses gastos não se perpetuarem, contaminando as contas de 2021, já será um sinal bem favorável. Além disso, se percebe uma motivação do Congresso em colaborar com a agenda. A perspectiva, ao redigir esse texto, é de aprovação do novo marco do saneamento, que poderá ser um primeiro passo importante no sentido de acelerar os investimentos em infraestrutura, com participação do capital privado e até estrangeiro. O Brasil, mesmo com todas as incertezas econômicas, políticas e relacionadas à pandemia, tem potencial para atrair investimentos em áreas mais específicas, desde que haja segurança institucional e jurídica. Ou seja, desde que se consiga estabelecer programas que dêem segurança legal e financeira para quem quer investir. O saneamento é um bom exemplo.

Quanto à estabilidade maior das projeções, isso começa a ocorrer também no comércio internacional. Estados Unidos e China reafirmam, pelo menos, a fase 1 do acordo comercial, em meio a muitas desconfianças quanto às relações entre os dois países, dados os embates referentes ao coronavírus e à forma como o país asiático lidou com a questão. Mas a pacificação do lado comercial guarda interesses políticos e estabele uma perspeciva melhor no plano global. Sendo que a OMC, a Organização Mundial do Comércio, já descarta a confirmação do pior das projeções, sinalizado logo após o momento mais drámatico da pandemia, que era de uma retração de até 32% do comércio internacional. Hoje a previsão é de uma queda de 18,5%.

O Brasil, com a forte competitividade da agropecuária, pode se beneficiar de um cenário de retomada de crescimento das várias economias, ou de um tombo menor do que o previsto, além dessa perspectiva de reação dos negócios no âmbito global. Cenário que já dá espaço para alguma reação também dos preços de commodities, reforçando o movimento mais favorável para as vendas externas do País.

Não se pode trabalhar com a perspectiva do melhor dos mundos. Mas, engatinhando, podemos sair do fundo do poço. Só que o País tem de fazer a lição de casa. Além de cuidar melhor dos desdobramentos negativos da pandemia do ponto de vista social, com desemprego mais elevado e aumento da desigualdade e da pobreza, terá de buscar alternativas para retomar o crescimento com maior participação do capital privado e foco na melhoria das finanças públicas. Será preciso desengavetar reformas que já constavam da agenda e, possivelmente, terão de ser menos ambiciosas. O País não pode perder tempo com discussões arrastadas de temas mais polêmicos, como se previa para a reforma Tributária. Mas dá pra avançar também nesse sentido. Paralelamente, para avançar com toda essa agenda, será importante um clima político mais pacificado. E, por aí, parece que ainda tem muita pólvora pra queimar.